#Entrevista: Maestro Antônio Domingos Sacco

Publicado em 30 de maio de 2017

Bom dia, boa tarde, boa noite!

Buscando informações sobre o Maestro Antônio Domingos Sacco, encontrei esta entrevista (em texto), que ele concedeu na década de 2000, ao extinto site “Brasil Bandas”. Pedi autorização ao Maestro Marcelo Bonvenuto, que graciosamente autorizou a reprodução do conteúdo aqui no Toque2.

Quem foi o Maestro Antônio Domingos Sacco?

  • Diretor do Forte das Artes ZX
  • Membro da Comissão Estadual de Música
  • Conselheiro de Ensino da Abemúsica
  • Diretor Executivo da FEPREC
  • Cons. Editorial da Revista Weril
  • Maestro Ex. Comandante da Banda de Música da Polícia Militar do Estado de São Paulo

Segue a entrevista:

Brasil Bandas: Como o Sr. vê o ensino de música em nosso País, e qual a visão da sua escola: o Forte das Artes?

Maestro A.D. Sacco: Todos os esforços estão sendo envidados para o restabelecimento do ensino de música em nosso País, mas percebeu-se que todos são em vão. Tentou-se através de diversos órgãos interessados na volta do ensino da música nas escolas, inclusive a Associação Brasileira da Música, da qual sou conselheiro de ensino, tentou modificar a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, porém o lobe dos que acham que quanto menos cultura melhor é muito forte. Desta forma, sem condições de chegar ao centro das resoluções encontramos uma outra maneira de abordar o assunto. Comer o mingau pela borda, isto é, motivar a grande massa interessada em aprender música é a estratégia mais viável no momento.

Com este movimento que poderíamos chamar de revolução musical chegaremos ao pretendido que é o retorno do ensino da música nas escolas. Esse movimento consiste em sensibilizar os diretores e supervisores pedagógicos escolares sobre a importância da música para o ser humano, principalmente para a criança. A musicalização infantil já está entrando nas salas de aula com benefícios inumeráveis, quer na afetividade, na coordenação motora, no auxílio a outras matérias, na autoconfiança, etc.

O Forte das Artes ZX se engaja nesse processo formando professores nas diversas áreas da música para suprir as necessidades do mercado de trabalho. Além das aulas de instrumentos que proporcionamos, damos cursos para Educação Musical Infantil, Regentes de Bandas e Fanfarras e Coreógrafos, sempre com métodos mais modernos e sempre seguindo o lema “Troque Agressão por Emoção”.

Brasil Bandas: E o ensino das Bandas e Fanfarras como tem se efetivado?

Maestro A.D. Sacco: Precisamos batalhar para que um dia Bandas e Fanfarras sejam matéria de Faculdade para que os regentes continuem o aprendizado musical. O ensino da música passa por etapas, e muitas delas estão sendo puladas o que fará falta sem sombra de dúvida para o correto aprendizado musical. Após os ensinamentos de musicalização infantil acompanhado de prática de instrumentos com bandinha rítmica à qual posteriormente poderão ser incluídos instrumentos melódicos como xilofones, marimba, flauta, etc.

A fanfarra tem o seu espaço reservado preparando o jovem para participar das Bandas de Metais e Musicais. Em todas as etapas deverão ser observados os ensinamentos: o ensinamento musical, a idade das crianças e os tipos de instrumentos que portam e que sejam compatíveis às suas idades. O ensino das Bandas e Fanfarras está sendo realizado dentro de uma ótica educacional, porém quem nos procura está muito mais preocupado em aprender como competir para ganhar.

Brasil Bandas: O Sr. Oferece em sua escola o curso do método de ensino coletivo com o Dr. Prof. Joel Barbosa; O Sr. Acha que poderia ser 100% aplicado à realidade de Bandas e Fanfarras mesmo em escolas públicas?

Maestro A.D. Sacco: O Forte das Artes ZX foi muito feliz em abraçar a importante causa educacional do Dr. Prof. Joel Barbosa, pois dos que fizeram o curso diretamente com o Dr. Joel, muitos deles já estão com suas bandas funcionando e com muito sucesso, porém devo destacar que são aqueles que não pensam em eventos competitivos, e sim em formar bandas para a comunidade. O método traz benefícios valiosos e é claro que poderia ser adotado em todas as escolas, principalmente as públicas.

Brasil Bandas: Tendo em vista Leis que apoiam a cultura no Brasil, o que bandas e fanfarras poderiam realizar para se beneficiar de tais leis?

Maestro A.D. Sacco: Existem leis Municipais, Estaduais e Federais de apoio à cultura. Em primeiro plano os pretendentes (Bandas e Fanfarras) devem ter personalidade jurídica (CNPJ), ter o cadastro de contribuinte municipal (CCM), estatuto, endereço e é lógico, uma diretoria, tudo registrado em cartório. Em seguida encaminhar a um desses órgãos o projeto contendo: objetivo, planilha de custo e detalhamento das despesas. Mas prestem bem atenção, não é uma garantia de sucesso, pois tudo depende do objetivo do projeto. Este projeto pode ter a característica Educacional, Artística, etc. Em caso de não ser a banda ou fanfarra personalidade jurídica, pode-se ou pleitear essa personalidade em nome da corporação ou criar uma sociedade amigos da banda tal, ou da fanfarra tal.

Brasil Bandas: O Sr. acredita que poderia ser realizado algum tipo de curso que habilitasse músicos profissionais e musicólogos para a função de jurados de uma categoria tão singular como é a das bandas e fanfarras, a exemplo do que ocorre com os jurados de escolas de samba no carnaval?

Maestro A.D. Sacco: Se os organizadores de eventos competitivos na área de bandas e fanfarras acreditassem na grandiosidade não só do evento, mas sim do envolvimento geral, levando-se em conta que quem faz a festa são as bandas e fanfarras com seus jovens músicos, se atentassem para os desgastes de toda ordem provenientes dessa competição e tivessem interesse em mudar esse estado de coisas desagradáveis seria interessante fazer cursos que habilitassem pessoas selecionadas para a função de jurados. Para tanto os regentes e coreógrafos devem se unir, percebem-se grupos distanciados uns dos outros que disputam antes do evento acontecer. A liga das escolas de samba é um exemplo a seguir, se devoram, mas seguem regras que na área de bandas e fanfarras são infringidas. Quem fizer o curso de capacitação para ser júri não deve jamais ter cadeira cativa, devendo ter rotatividade.

Brasil Bandas: Um jurado consegue manter os mesmos parâmetros de julgamento com 10 ou 12 horas ouvindo bandas e fanfarras?

Maestro A.D. Sacco: O desgaste é muito grande. Nenhuma atividade profissional permite que se trabalhe acima de 8 horas e com descanso. Para se prevenir de acidentes do trabalho que poderão prejudicar a si próprio ou a terceiros, e neste caso estará prejudicando não a si próprio, mas poderá prejudicar as bandas e fanfarras, quer pelo cansaço, quer pela falta de parâmetros.

Brasil Bandas: Qual a visão do Sr. (opinião) em relação ao que está acontecendo com a OMB, onde músicos de todo País entram com ações para se livrar dos encargos desta entidade (que não é governamental, mas que oprime os músicos muitas vezes até proibindo de tocar)?

Maestro A.D. Sacco: O caso OMB é crônico. Acho que falta um pouco mais de transparência nas suas atividades. As ações que músicos de todo País estão movendo contra a OMB tem mais um caráter de renovação do que reclamação dos atos da presidência. Temos tentado através de outros órgãos conviver com a OMB em benefício do retorno da música nas escolas, mas não logramos êxito pelo fechamento do casulo. Infelizmente não se sabe o que estão fazendo. Os músicos precisam se unir, fazer uma chapa e tentar reconquistar a OMB.

Brasil Bandas: O Sr. tem ativa participação na Secretaria da Cultura, o Sr. poderia nos dizer se existe algum projeto para bandas e fanfarras?

Maestro A.D. Sacco: A Secretaria de Estado da Cultura, como ponto de apoio ao Secretário, possui várias comissões, entre elas a de música. A área de bandas e fanfarras tem dois representantes na Comissão de música: Elias Evangelista da Silva Filho representando a Federação de Regentes e Coreógrafos (FEPREC) e Antonio Domingos Sacco representando a Associação Brasileira da Música. Tivemos grandes conquistas e entre tantas podemos salientar a inclusão das bandas e fanfarras no projeto Pró-Bandas 2002, lançado dia 17 de janeiro de 2002 na Secretaria da Cultura com a presença do Sr. Secretário, quando o Coordenador do projeto Prof. Neves de Tatuí, enaltecendo a presença de membros da FEPREC, em público declarou a inclusão das bandas e fanfarras no projeto, sendo que serão beneficiadas com partituras e cursos por todo estado de São Paulo. Hoje a Pasta da Cultura procura empregar cada vez mais as bandas e fanfarras em seus eventos. Mas estamos atentos porque aves devoradoras já estão rodeando um reduto ainda não maculado.

Brasil Bandas: O Sr. já foi jurado em importantes eventos, o que o Sr. poderia nos informar sobre os critérios de avaliação?

Maestro A.D. Sacco: Fui regente de várias bandas e fanfarras e Comandante e Maestro Geral do Corpo Musical da Polícia Militar do Estado de São Paulo e minha passagem por esses corpos não foi obscura. Hoje dirijo o Forte das Artes ZX, sempre preocupado com a educação e não com a competição embora deva existir. Nesta caminhada recebemos maestros de vários Estados do Brasil e fomos ministrar cursos em todo Território Nacional.

O que muito nos preocupa é a influência que o Estado de São Paulo exerce sobre outros Estados na área de Bandas e Fanfarras, levando a estes certas inovações que são maléficas à sobrevivência destes corpos eliminando suas características regionais, esquecendo que o alimento do músico é o aplauso e que nenhuma banda ou fanfarra é montada para seu maestro, mas sim para o povo que a aprecia. Mas onde está o povo que a aprecia se os eventos competitivos são realizados madrugada adentro. Com ênfase à sua pergunta Maestro Marcelo, você e eu até agora só tratamos as competições como evento, não usamos as palavras Concurso ou Campeonato. Concurso é o ato em que pessoas se submetem para testar seus conhecimentos a fim de galgar um posto superior ou ingressar em alguma instituição, cuja avaliação é feita por gabarito. Campeonato é o ato em que pessoas ou agremiações, observadas as regras estabelecidas (regulamento) se submetem a comparações com oponentes, vencendo aquele que tem mais habilidade dentro da sua especialidade, cuja avaliação é feita por juízes especializados.

Bandas e Fanfarras participam de campeonatos cujos regulamentos são obscuros e dão margem para inclusão de artigos que favorecem específicas agremiações, como é o caso do grande número de categorias. Os itens de julgamento, na maior parte dos regulamentos, se confundem entre si. Urge que se faça uma reavaliação dos critérios de julgamento e dos tipos de bandas e fanfarras.

fonte: Arquivo site Brasil Bandas

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A paixão musical surgiu em 1989 após ouvir a banda de sua igreja tocar. Em 1992 ingressou na Banda Municipal de Ribeirão, já extinta, em 1994 migrou para a Corporação Musical Lyra de Mauá, onde atua como Diretor, também atua como Maestro na corporação Musical Nova Aliança.

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