#Música: Novena de James Swearingen

Publicado em 15 de abril de 2016




#Ouça a música

Introdução

No ano de 1995, no auge da adolescência, que alias foi bem peculiar, já que meus amigos de bairro estavam ocupados viajando para praia entre outras diversões, eu me ocupava participando da Banda Lyra de Mauá, já em sua fase como Banda Marcial.

Especificamente em 1995, participamos do Campeonato de Bandas de Itaquaquecetuba, zona leste de São Paulo, cidade sede da famosa Banda Marcial de Itaquaquecetuba, se para você esta banda não representa nada na história das bandas no Brasil, sugiro que pesquise um pouco. Nesta época meu contexto musical era “evangélico” fato que não era, assim como continuo não sendo um musico exemplar, tocava na pasta de número seis do naipe de trombones, ou seja, para me tornar um solista teria que passar por no mínimo uns dez músicos melhores que eu, mas sempre fui um apreciador de musica instrumental.

Muitos músicos iniciantes da Lyra de Mauá, incluindo eu, costumávamos, logo após as apresentações, voltarmos para a área de julgamento para assistir a apresentação das outras bandas. E foi nesta noite, quase madrugada de um sábado para domingo, que conheci a música que me inspira até hoje: “Novena” do compositor James Swearingen.

Uma das bandas competidoras apresentou esta música de forma exemplar, claro que estou me fazendo valer da minha memória afetiva. A música com cerca de 6 minutos de duração é dividida em quatro blocos, que a mim passou a ser a representação máxima da jornada de Jesus Cristo sobre a terra, do seu nascimento até a ressurreição e ascensão aos céu!

#Ato1: O Nascimento

O primeiro tema, lento e moderado, inicia com toque de sino (uma nota Sib), sozinho inicia a música e ecoa seu som na contagem de 4 tempos e se repete a cada compasso, quando no terceiro compasso, ainda quaternário, surge como uma leve brisa que preenche e dá base a música, uma nota longa e grave do tuba e por cima inicia-se um solo terno e acalentador, que em alguns conjuntos é solado pelo clarinete acompanhado de uma flauta, neste caso foi usado um euphoniun, a música cresce seu volume e chega ao ápice, explodindo e finalmente anunciando o nascimento do Messias. Tudo implícito, mas muito inspirador. Esta sequencia retoma o tema inicial e finaliza no compasso 41.

#Ato2: A Vida do Jovem Messias

No segundo ato, a percussão, formada por caixas, bumbos e pratos, iniciam uma cadência frenética em quatro compassos quaternários, porém velozes, que inicia de forma rápida porem extremamente piano (volume baixo) e cresce nos próximos quatro compassos, explodindo de forma radiante no compasso 45, ao passo que todos os instrumentos atacam suas notas metalizadas, então somos apresentados ao tema que nos remete a Vida do Messias, e a forma pastoral que levava a mensagem de salvação, cura e amor. Esta forma ágil que remete ao curto ministério de Cristo pode ser sentido nas notas curtas e pontuadas dos trombones que fazem a cama para o solo das madeiras, que na banda marcial eram  executados por euphoniuns, que traçam em arcos a melodia que denota a leveza como Jesus levou sua mensagem ao mundo, simplesmente energético e inspirador.

#Ato3: A Crucificação

O ritmo frenético encerra com uma nota longa (fermata) que diminui o volume e dá inicio ao terceiro ato no compasso 96. É um motivo musical lento em que ouvimos um sino, na realidade um triângulo, que anuncia a crucificação, neste momento Jesus já esta na cruz. O tema é extremamente melancólico, mas nos remete muito mais a uma criança que dorme do que efetivamente a um funeral. Mas este tema se modifica dando inicio a escalas em em figuras de “semínimas”, (figuras de um tempo em compasso quaternário), a música ganha velocidade, e intercala as escalas entre instrumentos de timbres diferentes, sendo que o início vem dos calibres mais graves (lowbrass) e as escalas vão subindo e continuadas por instrumentos de calibres mais agudos, dando a intenção de algo esta ressurgindo, subindo, saindo do chão e alçando aos céus, como o processo de ressurreição, quando finalmente a percussão explode e o tema se modifica retomando o tema do segundo ato.

#Ato4: A Ascensão

No compasso 121, agora já retomando o ritmo frenético, chegamos ao quarto ato, agora com a retomada do tema do segundo ato, as notas cadenciadas antes feitas por trombones, dá lugar a trompetes e instrumentos de calibres mais agudos. Os trombones iniciam o tema de condução, dando mais garra ao tema e os euphoniuns e trompas ornamentam o tema com arpejos que simulam anjos dando glórias a Deus na alturas, pela ressurreição do filho de Deus, Jesus, o Cristo. Finalmente atingindo seu ápice a música retarda seu andamento e fica cada vez mais lenta (retardando) que breca  a música veloz transformando-a em movimentos largos porém  majestosos, fortes, claramente denotando a abertura das nuvens, as trombetas celestiais e a recepção do Filho junto a seu Pai. Jesus ressuscitou e acendeu aos céus.

Corpo Coreográfico

A apresentação musical era mesclada com um grupo de bailarinos homens e mulheres, que paralelamente a apresentação musical, atuava como um grande teatro ao ar livre, as apresentações eram feitas na rua, e mesmo sem a caracterização de personagens bíblicos – a Corpo Coreográfico usava fardamentos com os mesmos temas da banda –  recriavam ali no asfalto as cenas que remontam a história de Jesus.

Apesar do nome controverso para a realidade protestante, “Novena” é uma composição primorosa, que tenho a liberdade de afirmar que o próprio compositor não tenha esta visão de sua obra. Buscando referencias e notas do compositor, encontrei apenas notações do tipo “música vibrante”, “grandiosa”, “ótima para abertura de eventos” mas nada que relacione os quatro temas desta composição com temáticas bíblicas. Na religião católica o termo “Novena” é dado ao rito de encontro para orações, realizado durante o período de nove dias.

Um Tempo Depois

Conheci a composição, “Novena” em 1995. Dali passei a buscar as partituras, quando as consegui ainda não era maestro na banda da igreja, não tinha onde tocar, então as guardei e apenas em 1999 tive a oportunidade de reger esta peça, em meio a muitas críticas em função do nome da música, mas no Natal daquele ano, quatro anos depois, executamos esta composição, que antes foi anunciada com uma locução sobre o nascimento de Cristo e mesclada com imagens e passagens bíblicas durante a execução, que davam o tom a cada mudança de tema. Isso dentro de uma igreja Protestante.

Foi uma experiência única, não creio que James Swearingen tenha esta visão que sua música ultrapassa barreiras religiosas, sendo executadas em campeonatos a igrejas. Creio que música é isso, a representação de sentimentos, a linguagem universal e onde podemos visualizar e transcrever nossos sentimentos em histórias.

Forte abraço e boa semana!

Josisley de Souza

#Atenção: A grade para consulta esta neste link barnhouse.com

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A paixão musical surgiu em 1989 após ouvir a banda de sua igreja tocar. Em 1992 ingressou na Banda Municipal de Ribeirão, já extinta, em 1994 migrou para a Corporação Musical Lyra de Mauá, onde atua como Diretor, também atua como Maestro na corporação Musical Nova Aliança.

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